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Rebuliço

 


Como toda ex, eu tinha ciúmes de você. Não que você estivesse presente em nossas vidas ou que ainda fizesse parte do cotidiano, mas o simples fato de saber que, por um tempo, vocês tinham dado certo mexia comigo de uma forma que eu não sabia explicar. Você havia roubado e dilacerado o coração da pessoa que, até aquele momento, eu mais amava. E isso era insuportável.

Eu sentia raiva de você por todas as mágoas que carregava e, ao mesmo tempo, uma pontada de inveja por ter provocado nela algo tão único. Era um contraste cruel. Mesmo depois de tanto tempo e apesar de tudo, ela ainda falava de você com um carinho, com uma espécie de mágica no olhar, que me fazia questionar se aquele era mesmo o meu lugar. Eu não sei exatamente quando as coisas começaram a virar do avesso entre nós, só sei que, na falta de coragem para admitir algumas verdades e na cegueira teimosa para que tudo desse certo, eu culpei você. Era mais fácil.

Você ainda estava casada no papel. Você, cujas memórias ainda não haviam sido apagadas. Eu queria, a todo custo, que vocês se divorciassem definitivamente. Sentia um receio absurdo desse encontro e, por isso, fiz ela enviar a mensagem pelo meu celular. O silêncio que veio depois me fez perceber o óbvio: você não queria contato e eu estava sendo uma completa tola. Ainda assim, outros motivos nos afastaram no futuro, e eu mal sabia o que estava por vir.

Separadas, voltei para o abrigo da minha família, que me acolheu com amor, mas também com julgamentos. Nosso relacionamento nunca foi visto como um exemplo – primeiro, pelo preconceito que girava em torno de sermos duas mulheres e, segundo, pela minha convicção inabalável de que daríamos certo, apesar de tudo. No fim, foi justamente o acolhimento deles que me salvou.

E então, numa noite qualquer, quando eu senti que já tinha começado a colocar alguns tijolos no lugar, uma mensagem inesperada apareceu na tela do meu celular – e logo depois foi apagada. Mas eu conhecia aquele número. Era o seu. O que você queria comigo?

Respondi seca, com um: "Provavelmente, não era comigo que você queria falar."

Não lembro exatamente o que você respondeu, mas sei que foi algo tão educado e terno que, por um instante, senti uma pontada de culpa pela minha rispidez. Então, veio uma vontade absurda de perguntar se você estava bem.

Você respondeu um "sim" curto e direto, mas, por alguma razão, eu insisti. Eu não sabia quase nada sobre você, e ainda assim me vi genuinamente preocupada. Foi quando você desabou. Confessou que tinha brigado com a esposa, com quem era casada há sete anos. E, de repente, ali estávamos nós: duas estranhas, conectadas pela dor de um fim.

Eu sabia o que você estava sentindo. Você sabia o que eu estava sentindo. E, por mais que as pessoas ao nosso redor nos amassem, ninguém entenderia aquilo tão bem quanto nós duas. Por um instante – se é que isso é possível –, a sua dor foi o meu conforto. A certeza de que eu não estava sozinha. E eu não queria que você estivesse também.

Então, eu a acolhi. Como se já a conhecesse. Disse que tudo ficaria bem porque, naquele momento, era no que eu realmente acreditava. E, no dia seguinte, ao acordar, a primeira coisa que pensei foi se você estava melhor. E no outro dia também.

As mensagens foram se tornando um hábito, no início sob o pretexto da preocupação, depois por puro desejo de continuar a conversa. Aos poucos, fomos descobrindo pequenas conexões. Primeiro, trocávamos mensagens espaçadas, um "como você está?" entre uma madrugada insone e outra. Depois, conversas inteiras sobre músicas, livros e filmes. Sobre histórias do passado, sobre o que nos fazia rir, sobre o que nos fazia chorar. As horas passavam rápido, e a cada palavra trocada, eu percebia o quão fascinante você era.

Havia algo na maneira como você enxergava o mundo que me encantava. O jeito como analisava as situações com lógica e, ao mesmo tempo, com empatia. O equilíbrio entre ser forte e ser vulnerável. Eu não estava preparada para me apaixonar de novo, mas, sem perceber, fui sendo arrebatada antes mesmo de tocá-la.

Não sei se quando Rita Lee falou sobre fazer amor por telepatia era exatamente isso que ela quis dizer, mas, se não for, deveria ser. Porque o que existia entre nós já era algo que ia além das palavras. Uma sintonia que nascia no silêncio e crescia na ausência, no simples fato de saber que, em algum lugar, você estava pensando em mim também.

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