Escrevo sobre o amor como quem molda uma lenda. O transformo em tempestade, em furacão, em abismo. E às vezes me pergunto: será que faço um desserviço? Será que encho o mundo de palavras que inflamam e queimam, quando às vezes só se precisa de um sopro morno, de uma brisa de fim de tarde?
Quando comecei a escrever, foi porque não cabia em mim. A paixão era um incêndio, e a única maneira de não virar cinza era despejar as palavras no papel, dar forma ao caos interno. Eu escrevia para entender. Eu escrevia para não me afogar. E as palavras me guiavam pelo labirinto do que sentia.
Mas hoje eu sei que há mais do que o amor que chacoalha a alma. Há também o amor que acalma. O amor que não é fogo, mas brasas quentes em uma lareira acesa no inverno. Que não exige metáforas grandiosas, porque existe na simplicidade de um sorriso entre goles de cerveja, do toque distraído nos dedos, do prato de comida que já se sabe de cor o gosto.
Quantas vezes me frustrei por esperar um amor que explodisse, quando a verdadeira beleza estava no que não era explosão? Quantas vezes procurei tempestades quando o que me ofereciam era brisa? Eu queria transbordar, mas esquecia que o silêncio também pode ser um abraço. Que o amor não precisa ser gritado para ser sentido.
Jantar em um restaurante caro é uma experiência. Mas há dias em que o que a gente quer mesmo é o tempero familiar da comida caseira. O gosto daquilo que se conhece e confia. O amor não precisa ser um espetáculo para ser verdadeiro.
E talvez, por escrever tanto sobre o extraordinário, eu tenha me cegado para as belezas do ordinário. Para as conexões que não são tempestades, mas riachos tranquilos. Para os encontros que não arrebatam, mas confortam. Para os afetos que não viram poesia, mas viram casa.
Ainda assim, continuarei escrevendo. Escreverei sobre os amores que me atravessarem, sejam eles tempestades ou brisas suaves. Mas agora sei: todas as formas de amor são válidas. Mesmo aquelas que eu nunca imaginei.

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