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Carta Sincera


 

Hoje acordei com um nome preso na garganta. O seu. Mas não como nos primeiros dias, quando o despertar era um golpe seco, um desamparo feroz que me tomava antes mesmo que eu pudesse reconhecer onde estava. Não como naquela época em que, ao abrir os olhos, o peito se rasgava num entendimento tardio: eu não estava mais na nossa casa, e você não estava mais comigo. Não como quando a lembrança da sua voz, firme e irremediável, atravessava meu corpo como lâmina: "Eu não quero mais."

Não. Hoje acordei com a sua ausência mais leve, mais silenciosa, mas ainda assim presente. Como um perfume antigo impregnado em uma peça de roupa esquecida no fundo do armário.

A princípio, o tempo foi um labirinto onde eu me perdia. A culpa e a dor se enroscavam nos meus tornozelos como heras, e cada manhã era uma repetição cruel da noite anterior: um punhado de perguntas sem resposta, uma ânsia sufocante de voltar atrás, uma mão vazia buscando por algo que já não existia. Mas então, um dia, sem anúncio, sem fanfarra, o peso começou a se dissipar. Parou de doer tão bruscamente quanto começou, e por um instante me vi sem saber o que fazer com esse alívio. Pensei que talvez fosse hora de me encontrar.

Mas quem era eu sem nós?

O processo de reconstrução depois de um grande desabamento é meticuloso. O medo de errar de novo transforma cada decisão em um cálculo exato, cada passo em um ensaio cuidadoso. No início, fui paciente. Me respeitei. Mas a monotonia da estabilidade logo se tornou insuportável. A pele começou a clamar por vida, por vertigem, por qualquer coisa que me lembrasse do gosto do arrepio. E então eu busquei.

Na dança, na música alta, no álcool que fazia a realidade tremer em contornos maleáveis. Busquei nos olhares lançados de canto, na sedução inconsequente, na volúpia de corpos desconhecidos que me desejavam sem saber meu nome. Mas o vazio, esse velho conhecido, persistia. O desejo fugia com a madrugada, e a insatisfação me encontrava no travesseiro, no escuro, onde tudo era honesto demais para ser ignorado.

Foi ali que percebi. Eu ainda sentia sua falta.

Não da sua traição, não do gosto amargo da decepção, não das duas toalhas molhadas no banheiro denunciando uma intimidade que já não era minha. Não das palavras afiadas, nem das promessas quebradas.

Mas daquilo que fomos antes da ruína.

Sinto falta das noites em que seu corpo se encaixava no meu como se o universo nos tivesse moldado assim. Das viagens sem destino, das madrugadas frias em que suas mãos me aqueciam, da forma como você me olhava quando achava que eu não estava vendo. Sinto falta do vinho e da pizza de sábado, da sua cabeça repousando na minha coxa, do vento cortante no rosto enquanto a moto rasgava a estrada e eu confiava em você sem hesitar.

E não, não quero apagar isso. Não quero fingir que não existiu, não quero destituir nossa história da importância que teve só porque seu desfecho foi amargo. O mundo me diz que eu ainda vou viver grandes amores, e eu acredito. Mas ninguém me convence de que viverei este de novo. O que tivemos foi só nosso, e por mais que eu venha a amar outros rostos, outras bocas, outros corpos, essa lembrança seguirá intacta dentro de mim, como uma cicatriz que, longe de me ferir, apenas prova que um dia eu vivi.

Espero que esteja bem. De verdade.

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