Eu queria tempo.
Tempo para deslizar os dedos sobre a curva do seu sorriso,
tempo para decifrar os mistérios que você guarda no olhar,
que me atravessam tal qual, lâmina morna, deslisa entre minhas intensões.
Mas o tempo nos escapa,
foge entre frases interrompidas,
entre despedidas que chegam cedo demais.
E então eu invento,
procuro brechas no relógio,
desenho caminhos para que nossos passos se cruzem outra vez.
Porque sei que você também sente,
sei que sua pele chama pela minha,
sei que esse jogo silencioso já não se sustenta mais.
Você fala, e eu já não ouço.
A boca se move, e tudo que vejo é a carne úmida,
o brilho macio do lábio inferior,
o jeito como a ponta da língua se mostra e se esconde,
como um convite feito sem palavras.
Esse flerte velado me consome.
É doce como um veneno de mel,
é quente como uma brasa sob a pele,
e é confuso, tão confuso…
porque no fundo,
no fundo eu tenho medo de te ferir.
Mas o desejo me rasga por dentro.
Eu te quero,
com uma fome que beira a devoção,
com uma sede de quem nasceu para te servir.
Me desfaço num suspiro seco, me refaço no seu nome que
sussurro sem som.
Quero te dar tudo, mas mordo a vontade na ponta dos dentes.
me perco no desenho do seu pescoço,
na pele que pulsa ali, tão vulnerável,
pedindo para ser descoberta.
Se eu pudesse, te beberia aos poucos,
gota a gota, língua e tempo,
te decifraria com as mãos
e escreveria tua forma em arrepio.
Quero ser o chão onde você pisa,
o alimento que sacia,
o corpo que se entrega sem reservas.
Quero passear minha boca pela sua pele,
descobrir cada segredo escondido,
realizar os desejos que você ainda não ousou dizer.
Quero me perder no seu cheiro,
no seu gosto,
na sua respiração acelerada,
até que você não tenha dúvidas de que meu prazer é o seu.
E quando eu te devorar,
quero que seu nome escape dos meus lábios como um sussurro
profano,
quero que seus gemidos se misturem ao ar pesado do nosso
descontrole.
Quero que, quando seus olhos se fecharem e suas unhas
marcarem minha pele,
você saiba que ali, naquele instante, não há espaço para
nada além de nós.
Porque não é só carne que eu desejo.
Eu quero entrar na sua pele,
gravar minha presença na sua alma,
ser o pensamento que te rouba a paz
e o prazer que te faz perder o fôlego.
E mesmo quando a noite acabar,
quando o suor secar,
quando o silêncio tomar o lugar dos gemidos,
meu corpo ainda vai queimar pelo seu,
minha boca ainda vai ansiar pelo seu gosto,
e eu ainda, sempre,
vou querer mais.
Mas não tenho pressa.
Porque antes do toque,
quero o gosto do quase.
A dança da espera,
o brilho da fome nos olhos.

Comentários
Postar um comentário