Sempre tive uma fraqueza por olhares “vagabundos”. E quando digo isso, não é um simples olhar carnal, mas aquele olhar enigmático que te devora lentamente, sem pressa, sem certezas. Um olhar que cruza o seu por acaso e aquela pergunta inevitável ecoa em sua mente: será?
Geralmente não me permito ir além
desses olhares. Gosto da incerteza, do jogo silencioso, do risco de
desvendá-los e quebrar o mistério. Há algo sobre essa dúvida que deve ser mais
desejável para mim do que a própria certeza.
E então, entre todos os olhares
errantes que já me confrontaram, estava o dela. O mais difícil.
Quando estávamos juntas, ela parava por um momento entre as
frases, e seus olhos se fixavam nos meus. Por um momento apenas — um piscar de
olhos — ainda assim, tudo o que era preciso era me prender. Todo o resto ficava
borrado. Então, de repente, ela desviava o olhar como se percebesse o que tinha
feito, timidamente baixando os olhos para o chão, um sorriso torto de segredos
torcendo seus lábios. E, como se nunca tivesse acontecido, íamos direto para o
assunto em questão.
Quando chegava a hora de deixar
ir, o abraço era caloroso, mas com algo que eu não conseguia identificar. Ele
sempre durava um pouco mais, o suficiente para tirar meu fôlego por um segundo,
descendo a ponta de suas mãos pelas minhas costas, sua respiração perto do meu
pescoço, enviando um arrepio percorrendo-me da cabeça aos pés. E no último momento, antes de ela se afastar, um sorriso quase angelical enquanto
sussurrava que mal podia esperar para me ver no dia seguinte.
Ela era hétero. Minha amiga.
Casada.
Mas isso me deixava confusa.
Racionalmente, que outra evidência eu tinha além de um olhar e um sentimento?
Naquela noite, quando fui para a
cama, minha mente insistiu em encontrá-la. Fechei os olhos e me transportei
para aquele momento de despedida. Repassando a cena, uma e outra vez, revivendo
o desfecho que minha coragem jamais me deixaria: minha mão deslizando em volta
de sua cintura, puxando-a para mais perto, nossos lábios se encontrando, seu
corpo contra o meu. Conseguia sentir tudo: o gosto do beijo, o calor da pele e
até os suspiros entrecortados. A imagem era tão vívida que na penumbra do meu
quarto, me contorci na cama tomada pelo desejo de um toque que talvez nunca
viesse.
Mas poderia?

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