Pular para o conteúdo principal

A Descoberta



 Paula nunca pensou muito sobre paixão. Para ela, sempre pareceu algo morno, previsível, como uma brasa que aquece, mas nunca queima. O tipo de coisa que acontece devagar, sem grandes surpresas. O coração batia um pouco mais rápido, a pele esquentava, mas no final das contas, tudo era apenas uma equação simples. Sentir, gostar, beijar, talvez amar. Pronto.

Naquela noite, na festa, tudo parecia normal. Gente rindo, copos tilintando, a batida da música reverberando pelo chão. Paula nunca tinha sido o tipo que se jogava em multidões de desconhecidos, mas algo naquela noite estava diferente. Talvez fosse o álcool, talvez fosse a liberdade de estar cercada de rostos que nunca mais veria. Ou talvez fosse Laura.

Elas tinham se esbarrado perto do bar. Um sorriso, um olhar divertido, uma conversa despretensiosa que foi se estendendo. Laura era intensa, falava com as mãos, ria alto, tinha uma energia magnética. E Paula se pegou fascinada por cada pequeno detalhe dela. A maneira como seus olhos brilhavam quando falava de algo que amava, o jeito como inclinava levemente a cabeça quando ouvia. Nunca tinha sentido um magnetismo tão forte antes. Nem com um homem, nem com ninguém.

Mas o pensamento foi espantado rápido. Isso não significava nada, certo? Ela não era esse tipo de pessoa. Não era como se tivesse pensado sobre isso antes. Nunca sequer considerou.

E então Laura se aproximou.

Havia algo no olhar dela, algo que Paula não conseguia decifrar, mas que fez seu estômago revirar. Uma mistura de medo e expectativa, um frio na espinha que não era desconfortável, mas sim viciante. Ela poderia ter recuado. Poderia ter rido, dito algo casual, desviado o olhar. Mas ficou ali, congelada, sentindo cada segundo se esticar como se o tempo tivesse desacelerado.

E então Laura a beijou.

Foi diferente de tudo que Paula já tinha experimentado. Um beijo que não era apenas um toque de lábios, mas um abismo se abrindo debaixo dos seus pés. Seu corpo inteiro reagiu antes mesmo que sua mente pudesse processar. Um calor subindo pelo peito, um arrepio descendo pela coluna, um torpor que a fazia esquecer quem era, onde estava, o que deveria sentir. O beijo de Laura era intenso e, ao mesmo tempo, suave, como se explorasse, como se esperasse sua resposta. E Paula respondeu.

Ela deveria ter pensado. Deveria ter questionado, analisado, entendido. Mas não pensou em nada. Apenas se entregou. Porque, pela primeira vez na vida, algo parecia maior do que qualquer pensamento que pudesse ter.

E, por uma noite, Paula se permitiu não se preocupar com o depois.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Rebuliço

  Como toda ex, eu tinha ciúmes de você. Não que você estivesse presente em nossas vidas ou que ainda fizesse parte do cotidiano, mas o simples fato de saber que, por um tempo, vocês tinham dado certo mexia comigo de uma forma que eu não sabia explicar. Você havia roubado e dilacerado o coração da pessoa que, até aquele momento, eu mais amava. E isso era insuportável. Eu sentia raiva de você por todas as mágoas que carregava e, ao mesmo tempo, uma pontada de inveja por ter provocado nela algo tão único. Era um contraste cruel. Mesmo depois de tanto tempo e apesar de tudo, ela ainda falava de você com um carinho, com uma espécie de mágica no olhar, que me fazia questionar se aquele era mesmo o meu lugar. Eu não sei exatamente quando as coisas começaram a virar do avesso entre nós, só sei que, na falta de coragem para admitir algumas verdades e na cegueira teimosa para que tudo desse certo, eu culpei você. Era mais fácil. Você ainda estava casada no papel. Você, cujas memórias ainda ...

Madrugada

  Acordei no meio da madrugada com um arrepio na nuca que me percorreu como um sopro elétrico, me causando um frisson no bico do peito. Por um instante, pensei que fosse apenas o frio ou o tecido leve do baby doll, mas na verdade o que me despertou foi o toque de alguém. Entre o sonho e o real, senti suas mãos explorando o contorno do meu corpo, levantando devagar a minha blusa, como quem decifra um segredo, fazendo a dobra do tecido deslizar propositalmente nos meus seios enquanto repousava sua boca suavemente no meu abdômen, me olhando com cara de más intensões. Ao tirar minha roupa por completo, o ar pareceu se incendiar, colocou minha cintura entre seus joelhos e sentou sobre mim em silêncio, como quem domina e admira ao mesmo tempo. Seu olhar me prendeu, me atravessou como um espelho revelando ternura, curiosidade e fome. Toques lentos, quase rituais, percorriam minha pele como se cada gesto fosse uma palavra dita em uma língua secreta só nossa. Encontrou meus seios e os mas...

Tesoura

  Estávamos nuas, corpo a corpo, respiração colada. Nossos beijos se tornavam mais urgentes cada vez que eu te prensava contra a parede. Minhas coxas encaixadas entre as suas pernas, meus lábios explorando o seu pescoço e ela respondia com aqueles suspiros quentes no meu ouvido, as unhas traçando mapas nas minhas costas, rasgando meu controle, me deixando faminta. Quando envolvi o lóbulo da sua orelha entre meus lábios e o chupei com a delicadeza de quem prova uma fruta madura, senti seu corpo estremecer. Foi ali que ela despertou do transe em que estávamos presas. Num gesto rápido, quase feroz, agarrou minha cintura com força e me puxou para a cama, como se finalmente cedesse à própria vontade. Com um olhar de malicia e conveniência fitei seus olhos e logo em seguida o vibrador que estava na cabeceira. Não pensei duas vezes e enquanto beijava sua boca, estiquei a mão para pegar o objeto e logo ligar. Ao ouvir o som de vibração ela parou o beijo pra me olhar com aquela cara de ...