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Paixão vs Obsessão

 


Eu sinceramente fico me perguntando por que você visita o meu pensamento tantas vezes ao dia. Não é como se eu não tivesse outras coisas para pensar ou me preocupar, mas, no meio de todas elas, você surge repentina, como um flash, como um relâmpago que corta o céu sem pedir permissão.

Eu ficaria irritada se não soubesse que, na verdade, tudo isso não é sua culpa. Você não está fazendo nada. Você não me manda mensagens inesperadas, não aparece na minha frente com aquele sorriso de canto que bagunça tudo aqui dentro. Você não precisa. Você está aqui porque eu coloco você aqui. Então, me pergunto: isso é paixão ou obsessão?

Vamos às definições.

Obsessão: motivação irresistível para realizar um ato irracional; compulsão, apego exagerado a um sentimento ou a uma ideia desarrazoada.

Paixão: emoção intensa que toma conta do corpo, da mente e do espírito; desejo que consome, que arde e que transforma.

Mas e se a paixão for, por si só, um exagero? E se for natural que ela tome conta de tudo, que ela reescreva os dias e embaralhe a lógica? Como saber se estou sentindo o que qualquer um sentiria ou se já passei da borda e estou prestes a cair num abismo?

A diferença, talvez, esteja no que esse sentimento faz comigo. Paixão ilumina, aquece, impulsiona. Me faz querer ser melhor, me faz sorrir no meio do dia sem motivo aparente. Me faz querer te ver feliz, ainda que longe de mim. Obsessão, por outro lado, sufoca. Me faz querer prender você em um pensamento constante, me faz querer que cada mínimo gesto seu seja uma resposta para uma pergunta que talvez você nem saiba que existe. Me faz esquecer de mim para pensar apenas em você.

Eu me lembro de quando senti isso antes. Quando o desejo de estar perto não era mais uma vontade, mas uma necessidade. Quando cada palavra não dita era uma faca invisível. Quando cada ausência sua era interpretada como uma sentença contra mim. Eu me lembro do vazio que veio depois, da exaustão de esperar por algo que nunca foi prometido. Isso foi obsessão. Isso foi querer transformar alguém em meu mundo sem perceber que o mundo é grande demais para caber em um único nome.

E agora, com você, eu me pergunto: onde estou? Eu sou aquela que sorri ao lembrar do seu jeito de ajeitar o cabelo ou aquela que conta os minutos para ouvir de novo sua voz? Eu te quero para mim ou te quero feliz? Eu sou chama ou sou jaula?

Talvez a linha entre paixão e obsessão seja mesmo tênue, mas acho que agora sei como identificá-la. Se o que eu sinto me faz crescer, me faz respirar fundo e desejar o seu bem, mesmo quando não sou parte dele, então é paixão. Mas se, a cada segundo sem você, o peito aperta como se faltasse o ar, se tudo ao meu redor perde o brilho porque não tem o seu reflexo, então não é amor – é prisão.

E amar nunca deveria ser uma cela.


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