Nunca entendi essa obsessão das pessoas por segurança. Seguro é chato. Seguro é previsível. Seguro é o oposto de tudo que me faz sentir viva. Sempre precisei de algo mais — do tipo que acelera o coração e aperta a boca do estômago. Um salto, uma curva perigosa, um beijo fora de hora. Aquele friozinho que te faz lembrar que tá viva. Eu era isso. Eu sou isso.
Você, por outro lado, era a personificação da estabilidade: calça bege, agenda organizada e coração trancado em sete chaves. A primeira vez que me olhou torto foi quando contei que tinha pulado de paraquedas sem avisar ninguém. Disse que eu era inconsequente. Talvez. Mas inconsequente não significa desinteressante, e isso você percebeu rápido demais.
— Mas por que você faz isso? — você perguntou um dia, do nada, com aquela sua mania irritante de querer racionalizar o irracional.
Fiquei em silêncio. Porque eu não sabia responder. Porque era como tentar explicar o gosto de um arrepio ou o cheiro da chuva depois de um dia escaldante. Simplesmente era. Mas seu olhar ficou ali, preso em mim, esperando. E alguma coisa naquele silêncio me atravessou.
Depois disso, você começou a me observar. Não com julgamento — não mais. Com algo mais perigoso. Curiosidade. Fascínio. Tesão, talvez. Começou a se aproximar, um passo por vez, como quem se arrisca a nadar em mar aberto mesmo sem saber se tem chão. Comecei a te provocar, claro. Eu sou especialista nisso.
Você fingia que não gostava, mas sua pele entregava tudo. As bochechas coradas, os olhos arregalados, os lábios mordidos. E então vieram os convites: um café em lugar nenhum, uma carona que terminou numa estrada de terra, uma madrugada que começou com riso e terminou com nossas pernas entrelaçadas no banco traseiro do meu carro.
— Isso não é certo — você disse, sem se afastar nem um centímetro.
— Certo pra quem? — retruquei, a respiração colada na sua.
O beijo veio depois da pergunta. E com ele, o arrepio. O frio na barriga. O gosto de perigo.
Depois disso, você não parou mais. Cada vez que dizia “dessa vez é a última”, era só mais uma desculpa mal contada antes de acabar na minha cama, ou no meu colo, ou contra a parede do banheiro de algum bar suspeito. Era como se você estivesse descobrindo uma nova língua — e eu era o dicionário inteiro.
Você ainda tentava manter a pose. Fazia perguntas, fingia que precisava entender. Mas aos poucos foi se rendendo. Ao gosto, ao calor, ao caos.
Uma noite, depois de mais uma transa suada e silenciosa num motel de quinta, você me olhou de canto, com o corpo ainda tremendo e a voz baixa:
— Acho que estou começando a entender o que você sente.
— O frio na barriga? — perguntei, acendendo um cigarro só pra me exibir.
— Não. O vício.
Sorri. Porque você finalmente tinha entendido.
Não era sobre esportes radicais ou decisões impulsivas. Era sobre o limite. Sobre tocar o perigo com a ponta dos dedos e pedir mais. Sobre se perder de propósito só pra sentir o prazer de não querer voltar.
Você não se apaixonou por mim naquela noite. Mas a forma como me olhou… já não era de alguém que pretendia escapar.
E eu? Eu só me recostei na cama, abrindo espaço do meu lado, sabendo que a queda era só o começo.

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