Há coisas que a gente sabe antes de saber. Intuições que
chegam como pequenos estremecimentos, e que tentamos calar porque temos medo da
resposta. Mas o coração é teimoso e sábio. Ele avisa primeiro, mesmo quando a
mente inventa argumentos para silenciar o que já é evidente.
Você me fala dessas pequenas sombras que começam a se
desenhar outra vez. Eu te escuto. E, ao te ouvir, é como se eu mesma tocasse
numa ferida antiga: aquela que corta e, ainda assim, a gente insiste em passar
o dedo para ver se já doeu tudo o que tinha pra doer. Nunca doeu. Sempre dói
mais.
Preciso te dizer uma coisa com a delicadeza que você merece:
o ano não será novo se você continuar a caminhar pelas mesmas ruas escuras.
O tempo muda o calendário, mas não muda destinos repetidos. Quem muda somos nós
quando decidimos não repetir.
O que feriu uma vez quase sempre permanece afiado. Não
porque o outro é afiado, mas porque nós, sem perceber, oferecemos a pele no
mesmo lugar. É estranho como às vezes ficamos presas em equações antigas
esperando soluções inéditas. Mas o resultado não muda só porque agora você
deseja que mude.
Olhar para padrões é doloroso, eu sei. É como encarar um
espelho que revela mais do que gostaríamos. Mas é também o único modo de não
cair outra vez no mesmo buraco cuidadosamente camuflado da história passada.
Você me fala que parece viver num jogo cujas fases se
repetem. E eu entendo: há amores que viram labirintos. E há caminhos que
recomeçam sempre no mesmo ponto porque, lá no fundo, o desconhecido esse escuro
que se abre depois da porta seguinte assusta mais do que a certeza do erro que já
conhecemos bem.
Mas, minha amiga, viver é atravessar o escuro quando ele se
apresenta.
E, veja, a repetição também cansa. A diversão desse “jogo” antigo já não te
alimenta e você sabe.
Talvez seja hora de escolher o novo, mesmo tremendo, mesmo triste.
Talvez seja hora de deixar que a intuição, essa sua parte selvagem e brilhante,
te leve para outra fase uma fase que você ainda não sabe jogar, mas que
finalmente pode ser sua.

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