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Mostrando postagens de março, 2025

Amor Também é Casa

  Escrevo sobre o amor como quem molda uma lenda. O transformo em tempestade, em furacão, em abismo. E às vezes me pergunto: será que faço um desserviço? Será que encho o mundo de palavras que inflamam e queimam, quando às vezes só se precisa de um sopro morno, de uma brisa de fim de tarde? Quando comecei a escrever, foi porque não cabia em mim. A paixão era um incêndio, e a única maneira de não virar cinza era despejar as palavras no papel, dar forma ao caos interno. Eu escrevia para entender. Eu escrevia para não me afogar. E as palavras me guiavam pelo labirinto do que sentia. Mas hoje eu sei que há mais do que o amor que chacoalha a alma. Há também o amor que acalma. O amor que não é fogo, mas brasas quentes em uma lareira acesa no inverno. Que não exige metáforas grandiosas, porque existe na simplicidade de um sorriso entre goles de cerveja, do toque distraído nos dedos, do prato de comida que já se sabe de cor o gosto. Quantas vezes me frustrei por esperar um amor que explodi...

Carta Sincera

  Hoje acordei com um nome preso na garganta. O seu. Mas não como nos primeiros dias, quando o despertar era um golpe seco, um desamparo feroz que me tomava antes mesmo que eu pudesse reconhecer onde estava. Não como naquela época em que, ao abrir os olhos, o peito se rasgava num entendimento tardio: eu não estava mais na nossa casa, e você não estava mais comigo. Não como quando a lembrança da sua voz, firme e irremediável, atravessava meu corpo como lâmina: "Eu não quero mais." Não. Hoje acordei com a sua ausência mais leve, mais silenciosa, mas ainda assim presente. Como um perfume antigo impregnado em uma peça de roupa esquecida no fundo do armário. A princípio, o tempo foi um labirinto onde eu me perdia. A culpa e a dor se enroscavam nos meus tornozelos como heras, e cada manhã era uma repetição cruel da noite anterior: um punhado de perguntas sem resposta, uma ânsia sufocante de voltar atrás, uma mão vazia buscando por algo que já não existia. Mas então, um dia, sem anú...

Fome de Você

  Eu queria tempo. Tempo para deslizar os dedos sobre a curva do seu sorriso, tempo para decifrar os mistérios que você guarda no olhar, que me atravessam tal qual, lâmina morna, deslisa entre minhas intensões. Mas o tempo nos escapa, foge entre frases interrompidas, entre despedidas que chegam cedo demais. E então eu invento, procuro brechas no relógio, desenho caminhos para que nossos passos se cruzem outra vez. Porque sei que você também sente, sei que sua pele chama pela minha, sei que esse jogo silencioso já não se sustenta mais. Você fala, e eu já não ouço. A boca se move, e tudo que vejo é a carne úmida, o brilho macio do lábio inferior, o jeito como a ponta da língua se mostra e se esconde, como um convite feito sem palavras. Esse flerte velado me consome. É doce como um veneno de mel, é quente como uma brasa sob a pele, e é confuso, tão confuso… porque no fundo, no fundo eu tenho medo de te ferir. Mas o desejo me rasga por dent...

Fenômeno Natural

Ah, a paixão… um encanto assustador. Assustador porque nunca sabemos onde ela nos levará, e encanto porque, mesmo sem garantias, nos deixamos levar. Ela é como um espelho que nos devolve versões de nós mesmos que talvez preferíssemos não ver. E se já é um desafio nos despirmos para nós mesmos, o que dizer de nos entregarmos ao outro, nus de artifícios, despidos de medo? Ainda assim, a paixão é fogo e fôlego. É a chuva inesperada que rompe a estiagem, trazendo frescor à alma seca de rotina. Mas também é tempestade, derrubando certezas, transbordando limites, arrastando tudo o que não é forte o bastante para permanecer. E o sol… Ah, o sol da paixão. Ele aquece, colore a vida, dá sentido às manhãs. Mas exige cuidado – um descuido, e queima. A paixão, como todo fenômeno da natureza, não deve ser contida, nem tomada por garantida. É para ser sentida na pele, nos ossos, no fundo do peito. Vivida com entrega, mas nunca subestimada.  

Escuridão

Por fim, apaguei a luz. Nada como a nossa escuridão íntima, onde pudemos nos despir, tanto fisicamente quanto da alma, longe dos olhos críticos, reais ou imaginários. Aqui, você é única. Está tudo bem! Nem todos os momentos são iluminados, mas é essencial perceber a beleza do que sentimos. Esqueça o mundo lá fora agora, me beije! Nossas bocas se encontraram, seladas, e naquele toque, você tocou meu íntimo com a naturalidade de quem sempre soube. Quando, enfim, emergi de nossa conexão, pude me expressar sem reservas, ser apenas eu, sem mais nada. Entrelaçadas em nossa intimidade, te faço minha e sou tua, mas não no sentido de posse, e sim no de entrega. Sussurra em meu ouvido o que eu tanto quero ouvir: que o tempo parou e que não precisa ir embora. Diz que quer ficar, não só porque adoro ouvir, mas porque sabemos que, se não for assim, nada mais faz sentido. Fala mais, me conta teus desejos, teus segredos, mesmo os que já sei. Sorri com aquele ar de quem se perde, só para eu te e...

Será?

Sempre tive uma fraqueza por olhares “vagabundos”. E quando digo isso, não é um simples olhar carnal, mas aquele olhar enigmático que te devora lentamente, sem pressa, sem certezas. Um olhar que cruza o seu por acaso e aquela pergunta inevitável ecoa em sua mente: será? Geralmente não me permito ir além desses olhares. Gosto da incerteza, do jogo silencioso, do risco de desvendá-los e quebrar o mistério. Há algo sobre essa dúvida que deve ser mais desejável para mim do que a própria certeza. E então, entre todos os olhares errantes que já me confrontaram, estava o dela. O mais difícil. Quando estávamos juntas, ela parava por um momento entre as frases, e seus olhos se fixavam nos meus. Por um momento apenas — um piscar de olhos — ainda assim, tudo o que era preciso era me prender. Todo o resto ficava borrado. Então, de repente, ela desviava o olhar como se percebesse o que tinha feito, timidamente baixando os olhos para o chão, um sorriso torto de segredos torcendo seus lábios. E...

O Sabor do Impulso

Estávamos tranquilamente caminhando pelo shopping quando ela sugeriu sairmos à noite. — Ah, não, querida. Nem tenho roupa pra isso. E se eu pisar em casa, não saio mais! — retruquei, rindo. — Então você não vai pra casa, ué! Vamos lá pra minha, a gente toma uma cerveja, bate papo, e eu te empresto uma roupa. Se depois você não quiser sair, tudo bem. Ela fez aquele charminho irresistível, um olhar de gatinho que sempre me dobrava. Suspirei, já ciente de que estava vencida, e aceitamos um carro até a casa dela. No caminho, ela falava animadamente sobre o tal barzinho, enquanto eu ainda cogitava a ideia de voltar para casa depois de umas duas cervejas. Ao chegarmos, ela foi à cozinha preparar um petisco enquanto eu acomodava minhas bolsas na sala. Logo voltou com uma bandeja de frios, uma cerveja estupidamente gelada e dois copos. O calor do dia fazia aquela bebida descer como um alívio. Conversamos, rimos, e depois da primeira garrafa decidimos tomar banho. Eu fui primeiro enquan...